Me diziam que não era para falar palavrão, mas palavrão era tão bom. Me diziam que deveria ter cuidado com os ovos até que um dia, de tanto cuidado, chovia, escorreguei na lajota vermelha e não sobrou um ovo para contar história. Me diziam que para chamar boi era para falar tô... assim longo e até hoje chamo, mas eles só querem saber da fala do meu pai: santa mão que alimenta! Me diziam para não subir nas árvores mais altas, mesmo antes de eu pensar nessa vontade e ainda hoje acho algum galho para me pendurar pelas ruas da cidade, embora a força não permita grandes avanços acrobáticos. Me diziam para não falar de boca cheia e deixo a boca fechada para comer porque enquanto sinto o gosto do manjar é melhor mesmo ficar de boca fechada. Me diziam que era perigoso não olhar para atravessar a rua e é. Me diziam para não repetir a mesma palavra na mesma frase e eu pensava em sinônimos ou outros sentidos para fazer a explicação. Embora a mesma se repita dependendo da intesidade e estilística e do sentido. Depois me disseram que não era para conversar alto, mas tem coisas de mesa de família italiana que não dá para controlar. Veio um dia que falaram para usar batom e tentei, mas ficou meio esquisito e retirei a esquisitice com papel higiênico. Mais tarde também me disseram que não gostavam de batom e eu assenti com um riso garboso. Depois me disseram mil coisas para manter a saúde do corpo. Me dizem mil coisas. Até eu me digo outras milhares de ponderações, contudo conheço umas alternativas nada aconselháveis para a saúde ininterrupta do corpo. Não lembro como me disseram que quem morre vai para o céu. Mas eu vi que quem morria, ía mesmo antes para o cemitério... ficava pensando como chegavam através daquela terra toda no céu: um deslocamento e tanto! Depois asseveraram que não havia céu. Depois que havia espíritos que reencarnavam. Depois resolvi ouvir Hell Bells do AC/DC e continuei nessa crença junto àquela de Shakespeare que "há mais coisas entre o céu e terra do que sonha nossa vã filosofia" e por aí estou descobrindo algumas outras falas. E quando na primeira comunhão o padre perguntou: "existe inferno?", lentamente estiquei o braço e o meu sim ecoou na igreja matriz onde as crianças estavam para doutrinação. O mesmo padre: "por quê?" ao que ele mesmo respondeu: "porque tem céu! Afinal vocês não sabem que para existir deus precisa existir diabo?". Naquele dia fui para casa pensando no diabo, mas rezei pelos meus inúmeros pecados antes de adormecer. E quando a freira irmã diretora nos disse que éramos os diabos pelo conteúdo de nossos desenhos profanos. Não rezei mais. Me disseram que os sonhos falavam do inconsciente e descobri que também contam umas histórias que se significam, que independem do meu estado pregresso, bem pregresso. E continuei sonhando até afundar na areia de uma ilha no norte do país com sapatos de saltos pretos segurando malas: uma coisa Tieta apareceu, será por pregresso televisivo? E me disseram que era para ser honesta quando uma televisãozinha de plástico apareceu na gaveta da estante do quarto de visitas. Me disseram com tanto amor que morri de vergonha de ser desavergonhada. Me disseram para não mentir, mas eu - às vezes - omito. Me contaram a história do encontro dos meus amigos e até hoje a história recebe mais um detalhe durante conversas em quatro ou cinco ou seis ou mais, dependendo dos convidados. Me disseram para não contar tantas coisas de dizer por aí, mas eu conto, por que não?!
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Algumas coisas que diziam, disseram e ainda dizem.
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domingo, 5 de dezembro de 2010
observações (in) úteis. Para alguém?
Das vidas escritas em linhas tortas, sabemos. Já foram e continuam sendo escritas. Das vidas marcadas por linhas retas, também sabemos, também continuam sendo escritas. Sobre que vidas podemos saber o que não nos foi dito por um tipo de história, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, física, geografia, química, matemática? Um esforço enorme para falarmos de tantas vidas quantas percebemos possíveis e das que por muito tempo permaneceram impossíveis. Minerais, vegetais, animais, sobrenaturais: vidas e mais vidas, para todos os interesses, curiosidades, imaginações, para todas as ciências e religiões. Também há muito se faz composição de vidas e é disso que se fala hoje em dia com tanto entusiasmo nas ciências humanas e nas físicas, coisa que se falava e se fala por outros antes-ainda exêntricos índios, mas essas histórias requerem um cuidado maior, um detalhamento para que não caiam num exercício comparativo totalizador. Voltemos, então, às composições e a ideia de que todas as vidas executam perspectivas, todas pensam em perspectiva. Antes de imaginarmos distantes movimentos rituais de incorporação do outro-coisa, nos imaginemos às voltas com nossos instrumentos mecânicos, elétricos, digitais, nossos outros instrumentos corporais nos repetitivos rituais diários. "O meio é a mensagem"? Como nos indicou McLuhan. "As técnicas corporais" como representativas de "fatos sociais totais"? Como nos ensina Marcel Mauss. Corpo são, mente sã? Tal qual verbalizavam os gregos. Como se faz um corpo são, por extensão, nessa lógica, uma mente sã? Quais são os instrumentos disponíveis, indispensáveis atualmente - desde dos alimentares, das academias, suplementos vitamínicos, fármacos e tudo o que se possa imaginar para um corpo de hoje, que é demandado por quem? Não consigo responder essas questões. Inclusive porque são muitos os agentes que se comunicam com o corpo, mesmo que a mente não os reconheça como vida. Não estou introduzindo ligações cósmicas ou religiosas ou transcedentais. Falo aqui das coisas nossas de cada dia. Desde a pasta de dentes até o cachorrinho que se leva para passear nas calçadas da cidade. Como todas essas coisas fazem o corpo contemporâneo, fazem lógicas de ação, reflexão, estranhamento? Como fazem saúde e doença? Como falam todas essas coisas? Elas dizem alguma coisa ou isso é delírio pós-moderno? Não sou pós-moderna, se isso interessa. E não passo o tempo escrevendo, a escrita passa para aliviar o pensamento, a escrita como outra vida. Tudo bem, a pasta de dentes não fala, eu sei, mas os dentes falam? Ou dentes podres não dizem nada? Latour diz que a modernidade deu espaço para os híbridos porque se esforçou para localizar coisas semelhantes em grupos de similaridades. Descobrir esses nossos hibridos de pensamento, também é descobrir um pouco dessas coisas tão banais, porque cotidianas, que nos acompanham como objetos necessários. Tirar a necessidade das coisas, isso também tem me importado ultimamente.
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brevíssima nota.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Prefácio à discussão para uma memória obscena
A memória pode ser um lugar de relações obscenas. Pelo menos uma das memórias que conheço, bem próxima por sinal, relaciona assim porque encontra coisas diversas para tentar entendimento. E o diverso guarda uma potência de obscenidade na não medida, no confronto, sempre algum desentendimento como força de guerra. Uma guerra de colocar as partes para fora, de tocar, amassar, perfurar, estraçalhar, juntar pedaços, fazer configurações depois que uma linearidade narrativa se perdeu na ferida de um arranhão ou num corte profundo. Quando se faz o conflito, rasga-se algo do passado, às vezes porque é sobre ele que se invoca a legitimidade de algum dos lutadores ou de todos os envolvidos, às vezes porque o passado é tudo o que mobiliza com certa segurança argumentativa. Afinal, não se trata de duelar com espadas que fizemos hoje para discutirmos pensamentos que atravessam agora, trata-se de fazer pistolas para matar em nome de. E o NOME invocado é nação, pátria, um deus, é um nome de passado. Daquele lugar que não faz mais parte da maioria das vidas que vestem a farda para dizer o quê não pode ser! e quanto mais longe o lugar deixado para o passado, mais obscuro e mais difícil de ser contestado com força de quebra, pois que está protegido por àqueles amordaçados de "razões". Então, para mentes duras, razões obscenas!!! E invoco um "homem" de outro espaço material, Sade, para marcar que o passado pode estar lá, mas que está sempre bem dentro quando nos propomos à algum exercício de fabricação com múltiplos. Memórias estão obscenas porque também podem e devem (na minha contente vontade) se relacionar intesamente com tudo!
P.S: Sim, dos perigos... sabê-los durante a relação e não somente por regramento. Porque as regras também e muito produzem seus grandes! perigos.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Sem título.
Antes de tudo escolho o tamanho das letras, depois o tipo. É bom escolher e não tem critério algum, pura arbitrariedade de um pensar vago, pois o texto é só uma possibilidade, o texto se faz - pelo menos - nesses meus casinhos desinteressantes - durante o fazer, alguma ideia antes, às vezes duas ou três palavras pólvora, sem fogo. Acendo a dinamite ou a vela ou lâmpada quando escolho o tamanho e a forma. Por que isso hoje? Porque estava pronta para escrever sobre dissonâncias, não, não bem isso; mais para desconfortos. Preparei um bilhetinho enquanto estava na cozinha passando um café e vendo a chuva molhar a pia, sem me importar por não ter uma louça limpa para ser molhada e os cactos todos eles ali recebendo respingos depois desses dias de calor, dias de calor - sufoco e saia e camisa e laterais de sombra, com sombra, sob sombra deixando as pernas dentro para não queimar. Essas coisinhas se fizeram sozinhas, de memória, de sentido e junto memória + sentido + aquilo que também digo que aconteceu. E chego no antes desse preâmbulo invasivo: se pode dizer das coisas, mas saber... talvez por instantes. E mudo abruptamente o rumo da prosa, mas sem mudar muito o desespero. Tento pensar como, o quê meus contemporâneos dizem, a partir de filmes e livros de seres de outro planeta, me soa tão grosseiro. Seus seres fantásticos são de uma violência a todo tempo dominação, miséria, um conflito marcado por uma história pobre, fazendo da história toda a sua pobreza. Não é a história que estraga é não saber fazê-la de outros. Vide outras histórias de outros para fazer diferente. Voltando aos aliens... tão aparentados com os demônios desenhados nos livros medievais, tão demônios ainda hoje, com tanto tecnicolor; chego a ficar com olhos verdes mirando as películas e me transformo em preguiça, menos em monstro. Mais uma: são sempre armados e atiradores cheios de vitalidade, sem nobreza. Lhes falta mesmo estar fantásticos.
Justifico o texto e por vezes aciono cores para as palavras.
P.S: tem uns outros personagens que andam me convidando para uma festinha. Vou me arrumar e numa próxima fofoco o encontro.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Entre a vontade e o estar: uns trocados.
Uma mansidão de dia cheio de luz e brisa. Aquela vontade de não ter nada por fazer para fazer tudo e nada em qualquer momento. Sair de uma aula, correr para buscar aquele livro encomendado, parar para ler ao menos a introdução tomando uma cerveja, mas a cerveja está cara em todos os botecos, bares, cafeterias e variações de estabelecimentos da redondeza. Também não interessa caminhar quilômetros para encontrar algum lugar que valha o valor do líquido dourado, do prazer de não ter que esperar a cerveja gelar no congelador, de fazer o lugar da vontade agora! O rádio, na manhã seguinte, também ensolarada, diz que a demanda pelo líquido está maior do que a produção, regra básica de economia: demanda > produção = não conseguir pagar a cerveja sentada na mesa de qualquer bodega mais ou menos digna de uma leitura. O supermercado também oferecendo preços altos para possíveis relaxamentos e outra notícia dizendo da avaliação da futura presidenta sobre o aumento do salário mínimo. Quem nem mínimo tem, espera outro pronunciamento sobre reajustes em bolsas de estudo. Estudar para beber, beber em intervalos para estudar alguma forma de fazer com que a regra básica de produção capitalista seja regra básica de concretização de desejos.
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Os Monstros e uma tal de "Dona Maçaneta"
Para Arthur, meu primeiro amigo criança depois que estou grande.
Com meu outro amiguinho, gostamos de nos fazer monstros e inventamos nomes de monstros e os monstros não são horríveis porque nós não o somos. Nós e os monstros duas coisas diferentes ao mesmo tempo. Esquecemos mais de nós e somos mais monstros, isso também é verdade. E caminhando por uma ponte fugíamos da “Dona Maçaneta” nossa perseguidora porta, que por ser porta de garagem tinha uma bocarra enorme e supúnhamos que queria nos engolir, supúnhamos porque não a deixamos ficar perto e corríamos na empolgação de gastar as pernas e a energia. Entre uma árvore e outra, lá estava ela pronta para nos abocanhar. Que coisa, ela quase não saia do seu lugar, mas nós a pensávamos em toda parte. Até uma música inventamos para embalar a felicidade de te-la como ameaça comum. Estávamos unidos pela nossa perseguidora e pelas aventuras de monstros. Nossos nomes de monstro: hum, não lembro bem, também tínhamos corpos não muito estranhos, no máximo usávamos barba de pau na cabeça. E tiramos fotos e corríamos ameaçando os pássaros. Até o escorregador da pracinha virou rampa de aterrisagem. Nossa história de monstro não teve final feliz porque nem teve tragédia tampouco teve final: ainda. História de uma tarde de sábado, a deixar a bola perdida para caminhar e trocar imaginações por entre caminhos curtos. Estamos até hoje com essa história, mesmo que seus detalhes tenham se perdido naquele dia, refeitos a cada encontro de nossas lembranças. Meu amigo monstro tem quatro anos e estará completando cinco em poucos dias. Meu primeiro amigo monstro desde que me conheço por gente.
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terça-feira, 2 de novembro de 2010
Eu não tenho culpa, ora essa!
Queria saber se estavas acordada. Sim, mais ou menos. Quero conversar contigo. Tchau. Tchau.
Quando a hora marcada para a conversa se aproximava quem não desejava que o tempo chegasse, correu ao banheiro, trancou a porta e ligou o chuveiro. Também era necessário o mínimo de asseio depois de uma noite cheia de cheiros. Limpeza para uma conversa que supunha ser também sobre limpeza. Correr, correr é o melhor para fazer crescer, uma vez que os desejos dos outros também batem na porta para impor certos-muitos rigores.
Quem telefonou para falar sério, aguardava no corredor, com um copo d´água nas mãos e cara de mãe preocupada e decepcionada e irritada e um olhar de canto de uma filha que pensava "será que teremos alguma palavra nova nessa conversa séria que tantas vezes já foi séria?" Porque sempre há a possibilidade de uma invenção e se isso acontecesse, seria para uma solução drástica, pois as falas anteriores já haviam chegado no ponto: internação. Sempre o espectro da internação e aquela chatisse de que se fosse, seria uma argumentação à favor, cheia de outras respostas contra, de um lado um falando russo de outro falando japonês e aquele que falava russo só em russo e aquele que falava em japonês só em japonês. Todos os lugares preenchidos sem relação com a situação, a remarcação de um princípio insistentemente ativado. Não houve surpresa nas palavras, mas na forma. Uma intensidade de troca. O princípio em suspenso, pois é mais difícil julgar quando o outro olha no olho com segurança e não se tem tanta certeza de que crime cometeu. Foi falado em problema, em não saber parar, em imagem - afinal, domingo até tarde sabe-se-lá-com-quem? - bêbados e inconsequentes e se qualquer acidente fizesse um estrago na familia, uma tristeza de filho morto ou prejudicado ou qualquer coisa. E... se eu estivesse como pais eu estaria dizendo a mesma coisa, mas o que posso fazer com essa vontade de loucura, não quero arrancar e quando vejo tudo está acontecendo e fico dentro e brinco e, mais do que nunca, pouco me importo porque me importo demais com tudo desse mundo das classificações, afinal - não deixo de assumir e ir até os limites da responsabilidade. Tudo bem, mas precisas de ajuda, talvez possamos fazer alguma coisa, algum tratamento. Não, por favor, não estou precisando de controle, mais controle, já estou cheia de tanta moral fazendo as vezes de razão. Mas te comprometes a não exagerar? Se é assim, se é por vocês, sim porque por mim, às vezes, tenho mesmo que mandar tudo à merda! Vamos lá, vamos cuidar da preocupação daqueles que gostamos, ser filho é bem difícil também, tanto quanto amoroso.
Descemos e almoçamos e conversamos sem constrangimento. Teve até pudim de sobremesa... talvez mais dois ovos para diminuir o gosto de amido de milho,outra receita para desviar da ressaca.
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