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quarta-feira, 23 de março de 2011

Um Outono: Um Homem Chamado X

Um Homem chamado X andava contente com esses dias de outono. 
Chegava a exercitar piruetas na rua e a cantar em voz alta, ele, justo ele, um desses cidadãos que fazem de tudo e mais que o tudo para passarem quase invisíveis pelos outros, nas ruas, supermercados, bancos e todos esses lugares de filas e olhares furtivos. Aliás, como se rouba olhares nesses espaços de suposta indiferença. Suposta porque lhe parecia que todos negociavam sentidos, negociavam as coisas que não se fala, aquelas que chegam a ser comparativas. Um cabelo, um terno de linho, um vestido florido, uma armação de óculos elegante, um sapado clássico, cheiros essas coisas das modas que se vem e que se atravessam e entretecem no tempo, modas que são gostos ou que são tentativas de estar como forma. Sim, forma: essa mesma ideia que se usa para as discussões em arte.
X andava tão contente que ouvia rock´roll, rock´roll all nigth. Chegou a sair de casa num desses dias de segunda-feira com a empolgação de um show de Chuck Berry aos oitenta anos. E fez-se Elvis Presley mexendo sua pélvis como num coito apaixonado e selvagem. Deixou-se totalmente embebedar pelo corpo, queria corpo, corpo e mais corpo. Compor com todos os corpos, compor com materialidades e imaterialidades, Compor com aquele sol. Entrar no vento. Desfrutar do toque da chuva. Abraçar árvores. Sim, parou numa ruela para abraçar uma árvore, final de tarde, o sol a inundava de calor. Um corpo liso, ainda liso, junto, dentro daquela casca que pulsava. Encostou o ouvido no tronco e despediu-se com uma escutadela. 
Na saída, correu, correu, correu até perceber que precisava fazer alguma coisa, pois não tinha mais poucos anos. Percebeu também o quanto já tinha feito do corpo, mesmo naqueles dias de marasmo deitado à cama, embrutecido pela televisão. E que o corpo tinha limites, assim como tudo que não é levado a sério e investigado com paixão. Correu até sua casa e tirou toda roupa em frente ao espelho. Nú. 
Olhando-se nú.
Amando-se nú sem tocar em qualquer parte do corpo.
E mirou a mão, com os dedos... ora os dedos.... sempre, todo dia aquelas mãos a lhe lavar, lhe alimentar, lhe abrir a porta para o mundo, aqueles dedos agarrando cada momento para levá-lo adiate. Às vezes levá-lo de volta, levá-lo para memórias empoeiradas, guardadas num baú que fora a caixa de ferremantas de sua bisavó, sim, tivera uma bisavó afeita aos trabalhos com madeira, especialista em rastéis de seis dentes. Puxava tudo, diziam os que vieram depois no espaço-tempo.
Juntou as mãos em palma e entrelaçou os dedos, soltou-os para largar as lembranças dessa estranha que conhecia melhor que aos seus contemporâneos.
E olhando-se massageou o peito, carregando as mãos às costas e deixando-as escorregar até as nádegas. Ainda duras. As nádegas... passava por elas somente na hora de secar o corpo depois do banho, também quando a cadeira era dura ou o ônibus estava lotado. Mangas. Sentiu-se com mangas. Sentiu-se vulnerável à uma mordida. Desejoso de uma mordida. Mordida de boca vermelha, boca molhada. Largou os braços na extensão e tocou os quadris, massageou as pernas sem constrangimento e acariciou os dedos dos pés. Quanta bobagem, quanta prudência, quanto desconhecimento em relação ao próprio corpo.
E o pênis fervilhando com o sangue, aquele sangue ativado por uma beleza íntima de outono, uma beleza de vida: isso é quase tudo, pensou. 
E tocaram o interfone: não atendeu.
Continuaram tocando: olhou-se fixamente no espelho. Fixo nos olhos.
A campainha ritmada: de quem eram aqueles olhos? 
Ninguém em casa para atender a porta, somente um homem chamado x que dançava nú.






quinta-feira, 3 de março de 2011

Parar:

Parar. Parar com muitas brincadeiras. Para deixar de fazer tentativas infinitas. Para trabalhar antes de mostrar coisas às pessoas.  Para ficar mais escravo de si mesmo, mais escravo do mundo-roda-viva.

Uma das questões dos tempos de hoje (e imaginemos nós de quantos mais): mostrar não resolve o que as pessoas veem. Porque as pessoas sempre veem alguma coisa para positividades ou negatividades, às vezes, até muito a mais, veem as coisas do entre e isso tem a potência para produzir encontros. Mas, muitas vezes, veem o que querem ver. E um problema pode acontecer quando o querer  repousa  na padronização da forma monólogo de comunicação.

Pessoas que veem desrazão até antes de a boca falar. Que - com sorriso - acenam uma condição indesejável para uma conversação. Elas tem o direito de acenar. De dizer sim e não e ficar em dúvida e brigar. As pessoas tem o  poder de ir até as últimas consequencias quando se faz conversa. Para não fazer conversa, se usa e abusa do direito de categorizar ou de ser uma delicadeza duvidosa.

Acaba-se com o assunto antes de ele poder estar um assunto. Rompem-se os pratos, mudam-se as posições na sala, outros lugares e outras entonações das vozes. E ninguém entende nada porque nada foi dito, além da vontade de sarcasmo. 

Também acontece que se decide saber com toda certeza sobre uma vida que nunca mais com-vivemos. Bater o pé,  querer jurar! que alguma coisa está modificando aquela vontade que antes estava outra e que se supunha conhecer: desconhecer uma vontade atual é não se encontrar mais com ela. Os que se encontram sabem intensamente das transformações (ao menos se aproximam mais).

De qualquer forma as mudanças são bem pragmáticas às vezes - cada vez mais - quando as rugas acompanham contas, filhos e um futuro de incertezas (como qualquer futuro, aliás). Assim nos encontramos também com nossos próprios tempos e geografias. A vida na constância de múltiplas mudanças. Quando é através do múltiplo dos outros que nos damos conta que também não somos mais os mesmos ou somos os mesmos de um outro discurso.

Para afirmar que estar nas coisas não é fácil, principalmente, quando se está transitando entre sentimentos pesados. Esses acontecem com tanta força que entortam. E sempre tem outros tantos para entender perturbações e fraquezas e pedidos de socorro sussurrados com olhos de fogo. Tem outros para continuar nos fazendo mudanças. Ainda bem.

A personagem pára. 

Parar. Parar com não fazer brincadeiras. Para deixar de fazer tentativas infinitas de retidão de um pensamento circense. Para trabalhar antes de mostrar coisas às pessoas, trabalhar com o prazer do corpo inteiro.  Para ficar mais livre de si mesmo, mais livre do mundo-roda-viva.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A cozinha de Um Homem Chamado X

Um homem chamado x continua andando a pé para comprar o tal chapéu Panamá. Mas também anda nervoso porque o sol está tão suportável quanto uma chapa quente que te persegue a cada passo. Falando em chapa e coisas quentes, um homem chamado x estava com dúvidas sobre a disposição das coisas na sua cozinha. Como dúvidas? Ele mesmo, coçando a cabeça, entrava no absurdo. Porque se alguma coisa era verdade, além da destruição da camada de ozônio, era que aquela cozinha precisava mudar de alguma maneira. Ela, completamente sossegada, produzia estranhas resistências. Ele chegou a pensar que tudo era um sonho, impossível cozinhas com vontade própria. Aquele lugar tinha quase mais vontades do que ele quando o assunto era permanecer exatamente com as cadeiras no mesmo lugar; paredes brancas levemente amareladas - já que um homem chamado x pouco cozinhava (por aqui a história mereceria maiores detalhes, não para o deleite do leitor, uma vez que o deleite do leitor atualmente parece ser o ponto final de uma escritura, mas sim porque cada prato era realmente um exercício de cores e cheiros e sabores e, às vezes, desamores) - copos e pratos comprados na mesma promoção, fabricados com o mesmo material, pintados ou melhor seria dizer tingidos, com as mesmas figuras abstratas (ele gostava de abstratos, ele gostava de pessoas Pollock e coisas Pollock e cores Pollock e tempos Pollock, ele gostava); a geladeira que era uma voz incessante a marcar o compasso da sua irritação; bem... o fogão ele trocara há dois anos, mas parecia uma peça fora do lugar, segundo a perspectiva da cozinha. Um homem chamado x, por pouco dinheiro, ficava com as paredes, mas aquela cozinha tinha que deixar outras passagens, outras espaços... ele faria como? Convencer uma cozinha, era, sejamos no mínimo o mínimo, nada muito normal: aquela vida normal que acontecia com ele quase sempre. Mas como quase acontece mais que o sempre ele comprou cadeiras da década de cinquenta numa loja de roupas que estava liquidando até os bicos de luz do estabelecimento. Chegou em casa com o entusiasmo de cadeiras da década de cinquenta, chegou em casa com mudanças para a outra, para aquela cozinha que se tornara apavorante pelos iguais a todos os dias que ela emanava. Sim, ela emanava ela mesma em todas as manhãs e noites... sem contar os finais de semana... sem dinheiro para almoçar fora... e aquela cozinha. Eram três cadeiras, três cadeiras dos anos cinquenta, três que ele arrumou pacientemente perto da parede, sem remover as antigas da sua posição privilegiada à mesa. E começou a sentar-se nos anos cinquenta para almoçar nos sábados à tarde, depois de longos suspiros deitado na rede. Sentou-se no chão apoiando o prato na cadeira da esquerda dos anos cinquenta. Carregou uma delas para o quarto e experimentou ver um filme sentado, ali, meio desconfortável, meio satisfeito, meio pessoa que esqueceu que pode deitar para esticar o corpo. Um fato: a cozinha agora reclamava uma presença para estar cozinha ao menos nos cafés da manhã. Resolveu expulsar as antigas cadeiras (com uma inscrição para que fossem levadas pelo "mensageiro da caridade") e quebrou os pratos no melhor da tradição grega e fez da geladeira prateleiras. Parou por um instante e entendeu, pela primeira vez, o que aquele fogão fazia ali. Parou com o fogão. Um homem chamado x voltou sem ganhar e perder nada naquele dia. Porteiro, chaves, porta, movimento na maçaneta e cozinha! Coisas no chão. Quem havia feito em seu apartamento?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Natal de Um Homem Chamado X

"Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel...". A história é que uns são mais filhos que outros. Frase possível graças a experiência de nosso amigo Um Homem Chamado X. 
X desligou-se um tempo do mundo, tirou aquelas férias e ficou perambulando pela cidade porque não teve dinheiro para viajar. Resolveu pensar na vida. E entre uma escapada e outra do pensamento lembrou-se do episódio da última noite de natal, em 25 de dezembro de 2010.
Que dia horrível, um calor infernal e tenho que sair de casa para encontrar os familiares, comer churrasco, falar que minha vida no escritório anda bem sem ninguém entender o que faço dentro daquelas quatro paredes, em frente ao computador o dia inteiro. Os olhos da minha prima, sempre aqueles olhos dizendo que o que eu faço é não fazer nada, é no fundo ganhar dinheiro às custas do governo. E os tios, sempre falando de negócios bem sucedidos. Como podem ser tão bem sucedidos? Me questiono ano após ano. Uma voz que diz: é o trabalho. Tem-se que trabalhar duro para ser alguém na vida. Que vida, alguém de que tipo de vida? Sempre essa conversa e eu cada vez mais suscetível a um ataque de nervos, como diziam antigamente, como a psiquiatria também dizia. Muito bem, louco de doença dos nervos para os médicos, doente para os doentes. Ficar nessa mesa tomando cerveja para saber que tudo vai bem com todos, menos comigo. Se eu falar que tudo isso é uma mentira, que esse meu terno de linho me custou várias prestações, que queria muito um chapéu Panamá que ainda não consegui comprar, que cumprimentar todos com abraço e beijo me cança. A verdade é que todos os preparativos para o natal me cansam. Me cansam as propagandas na televisão, me cansam as mensagens para uma vida harmonioza e feliz, me cansa essa obrigação de comprar presentes, me cansam esses padres brigando pelo prestígio do mercado, me cansam todos esses movimentos de encontro difíceis de agüentar justamente quando as pessoas que encontro acreditam que é preciso agüentar nessa vida. Espero a cerveja acabar para dar uma caminhada na cidade sem me despedir dos últimos familiares que mantem a festa, que festa! Nossa. Caminho, olho os prédios antigos, passo pelas ruas onde brinquei na infância, vou procurar o prédio do colégio, vou procurar os esconderijos da adolescência, vou ser qualquer tempo além desse presente de relatar minha adultez num encontro de natal. Canço bem as pernas, os olhos e volto para jantar, me preparar para uma noite nessa pequena cidade natalícia. Amigos casados que ainda gostam de ouvir música, mas se recolhem cedo, vão para casa fazer sono ou sexo ou abandono através da televisão. Tento um último bar, tudo morto. Que bonito andar nessas ruas com esse efeito de luz de mercúrio. Bom mesmo vai ser chegar em casa, esticar os pés e fechar os olhos, sonhar com coisas diferentes, se possível. Não pode ser, que cachorros são esses? Nunca vi esse linguiça preto e esse vira-lata manchado, meu deus, eles estão vindo na minha direção. Mantenha-se com os punhos fechados. Eles não vão parar de latir, esses animais! Como é que vou sair daqui. Vou tentar uma fuga rápida. Não é possível, esse bicho não vai me deixar tirar o pé do lugar, será que terei que ficar aqui plantado? Como vou distraí-los? Ligar para quem? Muita humilhação ligar para a polícia pedindo resgate. Não! Fora de cogitação. Preciso que alguém passe por aqui, nessa cidade quase deserta. Cinco minutos, eu aqui no meio da rua e ninguém pára com esses carros de merda. Ai, ai... quem vem lá? Pára! Pára! Preciso de uma carona, esses cães não me deixam sair daqui. Que absurdo. Por fim tu, um amigo nessa situação absurda. Sim, vou ficar em casa. É, na casa dos meus pais. Estão vivos, passa lá uma hora para visitá-los. Não quero dar mais uma volta, essa história dos cachorros e eu parado ali no meio da rua, não. Chega! Meus pais, eles ainda moram perto do morro, sim. Valeu senhor y. 
Esse cara é inacreditável, finalizou o senhor y
Um Homem Chamado X tomou um copo de água e ficou feliz por deitar na cama, por estar escuro, por não ouvir uma única voz. Por não acreditar no papai noel há tempos!




















terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Método para economias de um homem chamado x

Um homem chamado x perdeu o chapéu. Um chapéu Panamá que comprara com um sorriso largo e economias de dois meses que fez deixando o ônibus e andando com os dois pés até o trabalho. Aquele seu trabalho de ler e escrever e de escutar, às vezes, vozes de pessoas em carne e osso. Essa vontade de chapéu o fez redescobrir algumas memórias. Na primeira manhã, não sabia muito bem quanto tempo levaria para chegar ao trabalho caminhando. Saiu uma hora antes para não se atrasar de maneira nenhuma, não suportava dar explicações e sempre dava explicações quando o olhavam com reprovação ou simplesmente o olhavam. Cronometrou. Contou sinaleiras. Observou o mapa de possibilidades para realizar o trajeto. E foi invadido por uma certeza de desconhecimento, afinal que região era aquela que supunha sua? Nunca vira aquela árvore entre uma casa e um edifício de oito andares; nunca aquele café de decoração bricolage; nunca o mercadinho com o colorido das frutas esperando dentadas; sem saber que haviam destruído o casarão antigo que ficava na esquina onde brincava quando criança; e aquela pastelaria ali? ele adorava pastéis; nunca vira o estacionamento no lugar do antigo cinema de filmes alternativos, rodados em madrugadas alternativas (lembrou-se de gostar de filmes alternativos); nunca imaginara o vazio da casa onde antes existira uma alfaiataria (andava para pegar os ternos do pai, pois sempre gavanha alguns trocados na volta); nunca vira um restaurante temático (ele que sempre pagava taxi para ir a um restaurante temático do outro lado da cidade uma vez por ano só, porque com o taxi ficava tudo muito caro); nunca ficou tão perdido na sua casa durante uma caminhada. Sem falar no adensamento humano que o atravessava conforme suas pernas o deixavam mais próximo do centro, onde estava o escritório. Sentiu cheiro de tinta, estavam pintando o viaduto pelo qual nunca mais passara. Sentiu cheiro de urina, isso não era novidade! E indignou-se por não haver banheiros públicos. Tinha sede, mas aguentaria porque se comprasse água na estrada, estaria subvertendo a ideia de economia para ter o chapéu. Era longe o trabalho, meia hora de caminhada e estava a cinco quadras e duas ladeiras do destino. Aquele aperto, e a raiva voltou: por que não faziam banheiros? Apressou o passo. A vontade aumentava na medida que pensava que não havia banheiros por perto. Nenhum bar nessa merda! Nenhum. Bannheiro, banheiro, vontade, passos, trabalho, prédios, carros, semáforos, pessoas, lojas, bancas de revista: um bar, pelo amor de deus! Apressou tudo que pôde. Não tinha mais o que apressar. Parou e mijou ali mesmo, de costas para a avenida e não pensou em nada, não olhou para lugar nenhum, deixou-se. Pego pelo braço. Policial o autua por desrespeito à moral e aos bons costumes. Ouve silencioso e o vermelho pintando sua face: sempre tão correto; nunca atrasado; economico; sedento; prédios; carros; sinaleiras; pessoas, velhinhas com cara de nojo; não-pode-ser; rizinhos; vendedores no limiar das lojas; que-cena-humilhante; que hipocrisia! Senhor, querias que eu urinasse nas calças? Não há banheiros por aqui! Isso não é problema meu, respondeu o policial sem tirar os óculos escuros. Mas como pode ser isso! Não defendo que fiquemos tirando os paus e mijando por aí, mas, convenhamos, mijar aonde se não existem banheiros públicos! continuou x.  Por um acaso o senhor está vendo outras pessoas mijando por aí? Está? Responda seu idiota! Um homem chamado x desenha um tapa na cara do polícia e corre. Corre. Corre. Corre e a multidão atrás, atrás do criminoso. Entra na prefeitura, penetra no elevador, gabinete do prefeito, não se deixa apresentar,  sem tempo para isso, a multidão gritando lá embaixo... Seu-prefeito-filho-da-puta: tá vendo essa gente? Pois fique sabendo que estão atrás de mim porque bati num policial que me autuou por estar mijando na rua. Você deve estar pensando: o policial está certo, cumpriu com seu dever. Estaria se houvessem banheiros públicos! Segurando o braço do prefeito com força:  agora, o senhor  irá até a janela e gritará em alto e bom tom que o senhor deveria estar sendo perseguido uma vez que não cumpre suas obrigações de administrador público, o que faz as pessoas chegarem ao extremo: a violência por causa de uma simples vontade de mijar! E não pense em não fazer isso, senhor prefeito, porque estou com uma vontade de mijar na sua cara! O prefeito falou à multidão que não entendeu nada e continuou querendo sangue. Um homem chamado x foi levado à delegacia, fichado, encarcerado por alguns dias e enfrenta dois processos.  Não desistiu do chapéu Panamá e andou a pé até comprá-lo, depois... até perdê-lo. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A fadiga do homem chamado x

Não sem surpresa chegou ao estado de esgotamento mental que não lhe permitia sequer dormir sossegado. Sabia de uma única coisa, que quanto mais lia, menos entendia. Precisava de um tempo para poder pensar em qualquer coisa, sem ter que organizar tudo, relacionar tudo, o tempo inteiro em formato de palavra escrita. Ele queria pedir férias. Isso, férias, seriam a solução. Mas não poderia recorrerer ao expediente das férias porque só as alcançaria depois de mais três últimos textos. Textos. Três textos escritos de que forma se não suportava mais juntar um e dois? Se não poderia fazer das palavras sentidos não repetidos ou organizações descritivas com a única intenção de cobrir folha branca de letras ditas palavras, frases, parágrafos, enfim, uma coisa qualquer que não faria diferença nenhuma para si, para ninguém, um cumprimento de meta vazio e desgastante, simplesmente cansativo, muito deselegante. Pensou, que fosse assim. Faria essa organização de palavras, sem  produzir grandes relações e questionamentos, faria de uma vez botar as letras no lugar que estavam exigindo. Numa folha A4. Contudo, palavras se revoltam e ficam tão feias quando arrancadas de cabeças cansadas... que  o que se conta fica marcado como simplismo, se faz das coisas, coisas que não vale a pena escrever! O pesadelo nem tinta recebe. 
Ele deixou-se levar por uma tensão moral: fazer qualquer coisa; não fazer e preservar a importância da escrita, do pensamento, dos leitores; fazer tudo o que o pensamento permitisse, dentro mesmo de sua fadiga para sim, seguir iventando sentidos. 
Quase insuportável, ele estava com o pensamento quase insuportável! Esse, inclusive, com constantes reprovações, do tipo: por que não vais adiante e escreve logo esse nosso movimento. Ao que ele repondia que não era tão simples relacionar tantos elementos e que ademais, haveria de cumprir formalidades, organizar citações, referir bibliografia. Vamos, não deixe isso impedir sua fala, vá fazendo as palavras marcarem o toque, queira deixar as relações, demonstre livremente como nós acontecemos, realize depois os polimentos. A cabeça dele, ele, o pensamento social dele, sabe-se lá com precisão quem? respondia que estava muito cansado e que não queria tratar argumentos, problemas, questões que  o importavam, sem intesidade. Então faça com intesidade, nos faça, não nos deixe virar arrependimento de palavra não dita, que se transforma em queixa. 
... Ele precisava seguir adiante, tentar sabe-se lá que potência para continuar pensando com o mínimo de beleza. Aprendeu de tanto cansaço que tem coisas que não podem ser escritas porque não foram expulsas ainda pelos sentidos. Trabalha-se duro nessa coisa de pensar. Para quantas dúvidas não guardar como trófeu? 
Quantas impossibilidades no tempo? 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Algumas coisas que diziam, disseram e ainda dizem.

Me diziam que não era para falar palavrão, mas palavrão era tão bom. Me diziam que deveria ter cuidado com os ovos até que um dia, de tanto cuidado, chovia, escorreguei na lajota vermelha e não sobrou um ovo para contar história. Me diziam que para chamar boi era para falar tô... assim longo e até hoje chamo, mas eles só querem saber da fala do meu pai: santa mão que alimenta! Me diziam para não subir nas árvores mais altas, mesmo antes de eu pensar nessa vontade e ainda hoje acho algum galho para me pendurar pelas ruas da cidade, embora a força não permita grandes avanços acrobáticos. Me diziam para não falar de boca cheia e deixo a boca fechada para comer porque enquanto sinto o gosto do manjar é melhor mesmo ficar de boca fechada. Me diziam que era perigoso não olhar para atravessar a rua e é. Me diziam para não repetir a mesma palavra na mesma frase e eu pensava em sinônimos ou outros sentidos para fazer a explicação.  Embora a mesma se repita dependendo da intesidade e estilística e do sentido. Depois me disseram que não era para conversar alto, mas tem coisas de mesa de família italiana que não dá para controlar. Veio um dia que falaram para usar batom e tentei, mas ficou meio esquisito e retirei a esquisitice com papel higiênico. Mais tarde também me disseram que não gostavam de batom e eu assenti com um riso garboso. Depois me disseram mil coisas para manter a saúde do corpo. Me dizem mil coisas. Até eu me digo outras milhares de ponderações, contudo conheço umas alternativas nada aconselháveis para a saúde ininterrupta do corpo. Não lembro como me disseram que quem morre vai para o céu. Mas eu vi que quem morria, ía mesmo antes para o cemitério... ficava pensando como chegavam através daquela terra toda no céu: um deslocamento e tanto! Depois asseveraram que não havia céu. Depois que havia espíritos que reencarnavam. Depois resolvi ouvir Hell Bells do AC/DC e continuei nessa crença junto àquela de Shakespeare que "há mais coisas entre o céu e terra do que sonha nossa vã filosofia" e por aí estou descobrindo algumas outras falas. E quando na primeira comunhão o padre perguntou: "existe inferno?", lentamente estiquei o braço e o meu sim ecoou na igreja matriz onde as crianças estavam para doutrinação. O mesmo padre: "por quê?" ao que ele mesmo respondeu: "porque tem céu! Afinal vocês não sabem que para existir deus precisa existir diabo?". Naquele dia fui para casa pensando no diabo, mas rezei pelos meus inúmeros pecados antes de adormecer. E quando a freira irmã diretora nos disse que éramos os diabos pelo conteúdo de nossos desenhos profanos. Não rezei mais. Me disseram que os sonhos falavam do inconsciente e descobri que também contam umas histórias que se significam, que independem do meu estado pregresso, bem pregresso. E continuei sonhando até afundar na areia de uma ilha no norte do país com sapatos de saltos pretos segurando malas: uma coisa Tieta apareceu, será por pregresso televisivo? E me disseram que era para ser honesta quando uma televisãozinha de plástico apareceu na gaveta da estante do quarto de visitas. Me disseram com tanto amor que morri de vergonha de ser desavergonhada. Me disseram para não mentir, mas eu - às vezes - omito. Me contaram a história do encontro dos meus amigos e até hoje a história recebe mais um detalhe durante conversas em quatro ou cinco ou seis ou mais, dependendo dos convidados. Me disseram para não contar tantas coisas de dizer por aí, mas eu conto, por que não?!