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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ditaduras

Alexander Pivato
Os desaparecidos e mortos pela ditadura civil-militar; os apenados institucionais e as lutas de revolta. Algumas considerações a partir de falas e depoimentos de familiares de mortos e desaparecidos. Desaparecido já é morto? Quem legisla a morte? Quem a legitima no Estado de Direito? O Estado, única entidade que detem o uso legítimo da força? Quem assinou o contrato social? Alguém lembra? Que história é essa de todos centrados em um? As partes e o todo? Mera coincidência, ou prática não demonstrada? Quais os investigadores de crimes? Quem os organiza, institui, autoriza? Quem manda em quem para quais? Como suportar as respostas cínicas, quando há respostas, à essas questões. Não sei como suportar! E sei, que aqui no Brasil, os familiares de presos políticos mortos e desaparecidos (e vice-versa) não suportam e lutam desde de dentro da própria ditadura até hoje. Sempre procurando as pessoas queridas, sempre pressionando a linha de segurança traçada para circundar os responsáveis pelas mortes, pelas torturas, pela tontura da "sociedade"(prefiro coletivos, segundo Latour) brasileira. Tive a oportunidade de ver e ouvir duas mulheres lutadoras na última sexta-feira (27/11) quando foi lançado o terceiro dossiê de mortos e desaparecidos e fiquei com o corpo todo inflamado, a pensar: como é o lugar do silêncio? O lugar do não-saber exatamente o que aconteceu com as pessoas perseguidas e torturadas e mortas e...? Como é buscar por aqueles que nunca mais voltarão? Buscar corpos inertes, histórias revoltas? Como é saber dos arquivos onde os crimes estão guardados e não ter direito de acesso? Como acreditar em democracia tal qual a discursam oficialmente? Como pensar em atuar na via institucional, especificamente, no judiciário e executivo, se as portas abrem somente com poucas e privilegiadas chaves? Elas respondem com suas ações, elas respondem identificando quais as poucas mãos que portam as chaves e o dizem - francamente - para quem quiser e quem não quiser escutar e são acusadas! Sim, acusadas de revanchistas! E se fossem, mesmo assim não estariam em guerra? Mas não é essa a guerra que elas fazem. A delas é de investigação, de mapeamento, de denúncia pública. A luta dessas mulheres é de tornar visível o que a ditadura fez questão de espremer até matar e continua espremendo para que o ato de espremer não venha à tona, não seja conhecido, quiçá questionado e condenado. À parte as nuances e sutilezas (que se dão através de angulosidades pessoais) daqueles preocupados em manter o sigilo sobre a violência "legítima" do Estado ditatorial e agora do Estado democrático, verifica-se as dificuldades de leitura das leis. As leis se lêem com ideologia, para o melhor ou para o pior. Uma guerra, onde as batalhas vão sendo conquistadas uma a uma através da tática de guerrilha desses familliares. Abertura dos aquivos do período da ditadura, os coletivos empenhados em desbancar o fascismo exigem isso! Para não continuarmos apenados institucionais, para podermos fazer nossas as instituições, para que relações outras possam ser produzidas a partir de outras peças, que os jogos se misturem para que criemos outras formas de jogar. Eu quero saber o que fizeram com as pessoas em luta! Eu quero saber dos mecanismos de extorção e exterminação da revolta! Eu quero saber!