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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Política Menor (número 0)

Em certos momentos penso que a humanidade está realmente em estado de coma crônico. Encontra-se – mesmo nos núcleos formados de intelectuais revolucionários - com pessoas que defendem o poder autoritário, uma forma – qualquer que seja- de dizer o que outros tantos devem fazer, como devem trabalhar, como devem comer, como devem viver suas vidas, como seus modos de existência não podem ser senão de acordo com todos esses estabelecimentos infra e supra estruturais como gostam de assinalar. E se tudo isso me irrita intensamente é porque não posso com afirmações de condições históricas que exigem ou exigiram (exigiriam) certas tomadas de decisão quando a própria história com seus acontecimentos instáveis deixa passar ensinamentos de outras possibilidades. Tudo isso tem a ver com inseguranças sobre as vontades, portanto, por que não, sobre a negação das coisas e traçados, contatos, conjugações, acasos das subjetividades. Mas sem deixar de tocar nessas “sólidas” estruturas de poder, agora tangencio a questão do controle da revolução e de seus agentes, tocando num assunto que se apresenta por pura lembrança e porque, de uma forma ou de outra, exemplifica o que podemos fazer em termos de tensão, de fricção até gerar energia de combustão revolucionária ou rompimento niilista. Certamente que – como diz Deleuze – o que pode nos manter enquanto humanidade é nosso devir revolucionário, mas uso isso com um misto de revolta que tem a ver com toda a vida que só pode ser feita durante as coisas consideradas podres, feias, sujas pela disciplina revolucionária. Então, se tenho mais vontade de fazer revolução como quem faz rock’n’roll, quem será o burocrata que irá me mostrar um caminho mais divertido e ao mesmo tempo sério – porque perigoso e porque diverso – de fazer algo diferente? Não se trata de se acabar na diferença em si, mas fazê-la funcionar como positividade ontológica e – para a total satisfação do corpo revoltado – como ação de luta. Fica-se cansada de ouvir que toda a forma de organização necessariamente exige uma maquinaria de centralização do planejamento e das tomadas de decisão. Pensando em exemplos etnográficos e históricos. Não pode ser. Podemos ser outra coisa. Podemos ter outra ordem. Podemos estar em relações que deem conta de mais de uma inteligibilidade; precisa-se acreditar que é possível ter mais de uma inteligência. Se ninguém mais acreditar, escrever um tratado para tornar isso real para além de uma mente marcada por certo número arbitrário e promíscuo de leituras. Só sei que não quero as regras dos EUA nem da União Europeia tampouco da China ou da Rússia. Ainda quero e penso e faço: “Pátria livre: Venceremos!” Porque ainda confio na nossa verve crioula! E nessa criatividade que não se deixa fazer doutrina, mas que faz política marginal. Será que teremos que voltar para as cadeias para aprender a desobediência civil? Ou para pegar de volta o devir revolucionário de cada ser posicionado nesse mundo de misérias?                                                                               

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Reclamação

Começou o não pensamento limpando as lentes dos óculos. Porque é suficiente para a vida seu próprio aspecto turvo. Suficiente, porém insuportável. Há muito para se dizer sobre os acontecimentos desse ano de 2013, das novas formações de política de multidão até as rearticulações de poderosos abutres que rodeiam esfomeados todo e qualquer vislumbre de ação autônoma executada pelas pessoas pobres ou pelas pessoas sem privilégios garantidos pela tradição masculinista, branca e oligárquica do Brasil. Nesse sentido, muitos grupos, desde trabalhadores liberais como médicos e artistas, sem contar os políticos e religiosos até jovens estudantes radicais tanto para a direita quanto para a esquerda, tem produzido um mapa amplo com alguns pontos de onde é possível partir para uma análise um pouco menos confusa que aquelas que estão sendo oferecidas por vários dos grandes meios de comunicação do país, como televisão, rádio e jornais de circulação diária, sem mencionar as revistas reacionárias de plantão que - mereceriam um estudo de caso, VEJA bem - ainda vendem notícias distantes do que se poderia chamar de jornalismo sério. Jornalismo sério, pois que quero dizer com isso? Quero dizer que - marcando desde o início o posicionamento teórico e metodológico daquele que produz informação - esta deveria apresentar no corpo de seu texto, junto aos "fatos", a forma de investigação dos mesmos, os recursos utilizados na obtenção dos mesmos. Alguns poderiam dizer que isso inviabilizaria a produção imediata da informação e, por mim, talvez tenhamos que nos perguntar a quem interessa esse tipo de produção? Mesmo pensando na informação de combate à homogeneidade das formas produtivas da grande mídia não só nacional como internacional, fico pensando o quanto nos custam pequenas linhas de descrição, sem aprofundamentos, o que custa marcar uma passagem sem voltar para fazer dela rastros que se incrustem  no imaginário de luta como forma outra de agir no mundo. Enfim, pensando em tudo o que li nas redes sociais e ouvi nos meios hegemônicos de comunicação durante todo esse ano carregado de diferenças e complexidades, de alianças e traições, me pergunto o que ficou de entendimento das várias palavras que - na sua grande maioria - se perderam, ou melhor, somente engrossaram bancos de dados dos sistemas de controle do Estado? Volto à esse espaço de conversa - uma conversa um pouco monológica, é verdade - para exigir daqueles que fazem seu trabalho como comunicadores sociais que sejam comunicadores e não opinadores , trabalhadores cegos que somente endossam o ambiente de ignorância que estamos partilhando. Porque se qualquer um dos casos emblemáticos desse ano: manifestações de junho (anteriores e seguintes); greve dos professores; caso de corrupção mensalão; usurpação de direitos dos povos originários e quilombolas; contratação de médicos de outros países para atuação no Brasil; a presença de um pastor evangélico como presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados Federal; o estatuto do nascituro prevendo a garantia de nascimento de seres gerados através de estupros; retrocesso nas discussões referentes ao direito de interromper a gravidez; as remoções de diversas comunidades pobres para a construção de mega estádios e outros equipamentos visando a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas de 2016; torturas, mortes de Amarildos e prisões arbitrárias de manifestantes públicos; processo de terror de Estado executado pelas polícias militares estaduais com o aval do governo federal, só para citar alguns acontecimentos, receberam mais que manchetes e filmagens espetaculares, narrações à distância ou notas rápidas de um algum veículo de internet (obviamente que estou deixando de lado uma série de publicações especializadas e cronistas muito importantes que cumprem seu papel de investigação, posicionamento e comunicação), muito pouco se fez em termos de produção de um recurso que realmente contribua para um debate público forte e crítico. Essa é uma crítica a tod@s aqueles que fabricam informações e escondem suas fábricas, sonegam impostos intelectuais e lucram com a manutenção da burrice coletiva. Pois bem, temos que trabalhar nos pontos da rede e desenhar esse mapa sob pena de sermos soterrados pela infinita quantidade de falsos pontos apresentados, pelos interessados na manutenção do status quo, como verdades ou "fatos", como gostam de dizer por aí. As pessoas podem ver mesmo sem óculos.

domingo, 14 de outubro de 2012

pensar num título

Tem lugar mais distante que minha casa?
Posso permanecer imaginando um fora;
posso passar pelas notícias distantes que se multiplicam nas redes sociais;
posso sufocar sem ninguém perceber antes de apodrecer;
posso enlouquecer raciocinando socialmente;
posso mergulhar na superfície da pele;
posso arrancar cada pedaço de pele;
deixar cada dente abandonado numa função alimentar;
posso comer minha própria carne quando nenhum roedor, barata, formiga, livro restar;
posso agonizar com um sorriso sincero;
posso perfumar as roupas;
posso comer os melhores resultados da arte culinária;
posso fotografar cada canto do nada;
posso deixar cair todas as cordas bambas.
Posso voar, assim como faço volta e outra, nos meus sonhos.
Através de um impulso alcançado por um pulo atinjo alturas de pássaro, de balão. Mas para me manter em suspenso tenho que concentrar nesse impulso.
E, como em tudo, há um risco. Perder a gravidade é subir para sumir ou cair para morrer.
Dos meus sonhos, sempre, que eu lembre, há algum elemento de morte.
E a queda é um constante perigo. ou me acontece pela metade, pois nunca me deixei cair completamente, sempre desperta quando começo a cair, ou melhor, quando me dou conta, por sentido físico de susto, que está acontecendo.
Fato é que posso voar. Porque tenho uma técnica que pode ser repetida em mais de um sonho. E se pode ser repetido, não é real?
Mas o que não me conforma é ser ilusão.
Fazer não deixa tempo para angústias, porque deixa os problemas no mundo entre coisas para além da vontade.
A questão toda é que nos abriram para as vontades ao mesmo tempo que comprimem o tempo do fazer libertário.
Mas tudo isso, se resolve tautologicamente nesse caso, fazendo! Até alcançar algo que leve o sentido à uma intensidade explosiva. Pois nem sempre o ato começa, acontece plenamente. Sobre isso: há um entendimento que escapa, uma vez que pelos mesmos meios não se passa pelos mesmos prazeres.
Por que somos tão impossíveis diante do prazer?
Por que ele faz quando e como quer?
Talvez não exista essa animalidade que institui prazer. Talvez seja tudo uma questão de circunstancia.
Então, tudo complica.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Frios

Alguns frios são de velhice. Porque o corpo congela com maior insistência e reclama dança para fazer o sangue esquentar e gastar o tapete da sala, para gastar calçada. Os frios de velhice são aqueles que não suportam mais banho sem aquecedor. Naquele momento que se pára para pensar como foi possível passar tantos invernos tirando a roupa unicamente sob a bruma de um chuveirinho elétrico de ferragem da esquina. O frio da velhice reclama chá, chimarrão, reclama muita água. Frio da velhice relembra uma série de frios da juventude. Lembra até da neve de 199... talvez 2. Frio da velhice não lembra com precisão porque memória vai além de precisão, vai pela vontade... aquela neve e um blusão amarelo que ia até o joelho numa foto com irmã, naquele contraste de verde com branco com cores de criança e cinza do muro onde empoleiradas fazíamos pose. Que vontade! Da neve, dos dedos congelados porque se brincava sem luvas. O frio da velhice é dedos congelados mesmo de tanto trabalhar com o teclado do computador. O frio da velhice precisa de luvas e de meias de lã também. O frio da velhice não vem na velhice somente, ele vem porque vem, sem mais nem menos. Fogão a lenha, casa aquecida embaixo da mesa. Voltar no frio da infância. Que frio interessante. Frio despreocupado. Divertido. Frio da velhice também, porque pode com vinho, queijos, pães e comidas quentes, naquele paladar que frio da infância despreza. Frio da velhice deixa passar devaneio e frio da infância deixa passar fantasia. Vice e versa. Frios fazem formigas, baratas, moscas, mosquitos irem para não sei qual outro universo. Será que todos morrem? Pensamento cruel, porque fiquei na torcida com uma carinha de: "imagina se fosse verdade!". Pelo menos no inverno esses animais nos deixam em casa sem grandes surpresas num frio de velhice quieto. Não sei por que, mas alguns frios são redondinhos, redondinhos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

X, as bebidas e o rock´n´roll

X anda preocupado. Não sabe ainda porque brigou na sexta-feira passada. Ainda assim, como acredita em si, espera que não tenha sido por nada. Alguma coisa aconteceu, mas o quê? Tentativa de reconstituição da cena da discussão. X bêbado num bar de uma cidade do interior. Encontros com muitos conhecidos de infância, outros não tão da infância e com desconhecidos. Entre os últimos, os seguranças do estabelecimento que o ameaçaram. Por que? O que foi dito? A bebida não deixa lembrar as coisas da cabeça e isso preocupa muito. Depois, nos dias seguintes, uma investigação sobre os seguranças, porque X estava realmente acreditando que tinha cometido um erro chato, porque isso era possível e como veremos, mesmo sabendo que os seguranças guardam um histórico de desavenças com violência gratuita, continua possível. O fato do outro lado brigante estar em outros contos de guerra, não modifica a dúvida, no máximo, explica a facilidade da disposição beligerante. 
E para X isso não deixa passar nada além, os acontecimentos aconteceram através de uma leve percepção de noite, chuvisqueiro, cervejada, rock´n´roll, amigos, conhecidos e seguranças prontos para partir para o ataque, aliás, não só prontos como ameaçadores. X ficou confuso porque também está para o ataque nos dias que os pensamentos fervem e ficam esquentando, perdidos, sem controle... aqueles dias que a consciência desliga do corpo e as palavras escorrem pela boca através de outra vontade, as palavras fazem o caminho da verdade e verdade, agride. Muitas vezes a verdade agride porque não é sutil e também porque fica muito tempo sendo pensada e dita através de meias palavras. A verdade quando sai na raiva da bebida fica uma verdade de vômito. E ninguém gosta de - porque fede, é nojento, ultrajante - tomar vômito de outros na cara! 
X é um homem tranquilo e respeitador. Procura banheiro púlbico para mijar quando a vontade vem na rua. Contudo X tem desvio na cabeça. Desvia para não permanecer no respeito paralizante, acrítico. X desvia porque quer outros caminhos e o desvio não é sempre positivo. Porque às vezes X pega desvio pesado demais e acaba perdendo a cabeça por aí. Deixando o próprio corpo mórbido e intoxicado por um dia inteiro. Um corpo que não pode se deixar tocar, porque está frágil e perceptivo demais. Um corpo que quase achou os pensamentos e que ainda está com o sentidos intensos de bebida. Confusão. Muitos sentidos e a pouca vontade de ir fundo para transformá-los em relações coerentes. É mais ou menos quando as relações acontecem violentamente, conectando alhos com bugalhos.
X cansou e não se arrependeu. Não matou ninguém, não apanhou e se deixou más impressões: assim ele é, assim também deixa que o vejam (mesmo que algumas situações sejam humilhantes). A grande questão é mesmo da quantidade: não ultrapassar o último (copo, gole, fio de discernimento).
Então foi e pegou o desvio errado. Acontece.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tempos de deserto

Se há tempos de deserto, isso descubro no aperto da mente. Desertos não são apenas paisagens amplas, com horizontes sem obstáculos, lugares onde o obstáculo é a solidão. Desertos são espaços de muita gente e de pensamento inquieto. Quando se quer coisas, mas não se tem a segurança para realizá-las. Se faz cada dia para desviar do fazer. E quando se faz, o feito não agrada. Uma sensação de incompetência, fora da autocomiseração porque crítica em referência ao que se lê, se ouve, se vê. Descobrir que a vontade não basta para estar dentro da vontade. Há alguma coisa da ação que implica a vontade para além da ideia. E o trabalho que isso exige produz uma angústia de fabricar além do banal. E se o banal apavora, como ele é? Ele pode estar no dizer o que é evidente, repetir sem estilo ou sensação uma teoria já dita, analisada, repetida sem entonação. Banal também pode ser um realizar por obrigação. Mesmo que a expectativa seja uma produção de um pensamento que some não que iguale o dito. Banal pode ser estar dentro sem ver um fora e enlouquecer procurando por uma saída que não se faz encontro. E se busca um entendimento “outro” que está igual do princípio ao fim. Dói querer expressar o que não se tem. Para expressar é preciso vida e ideia.  Se a vida se faz de visões de pensamentos mais inspiradores. Se a ideia não ultrapassa essa inspiração dos livros, das pessoas, da mundo é porque se está ou cego ou surdo ou? Será possível que a potência se transforme em incapacidade de pensamento? Uma paralização. Mas não inerte porque espetada pela angústia de produzir. E os acontecimentos que não se fazem contentamentos exigem a pergunta sobre o caminho que se escolheu. Será que seria mais satisfeito fazendo outra coisa? A resposta é que a satisfação faz parte dessa luta de pensar algo que avance na própria potência de pensar. Desorganização suficiente já experimento nesse deserto de ordem. E vontade de deixar a mente livre é uma desafio para o trabalho de pensamento normatizado pela dinâmica da referência. Porque ser livre no mundo do conhecimento é possível num diário ou no trabalho árduo de organização de todas essas falas publicadas e conferenciadas. E quando escrever se torna uma situação de pressão pela escrita que fale, o que era um prazer com pequenas ambições de externalidade, de aceitação, se comunica como um desafio de persistência. Começar é sempre o verbo das dificuldades. Às vezes, das mentiras. Começar exige que já tenhamos começado. E no tempo de deserto é preciso anotar as coordenadas, traçar riscos, curvas, tentar caminhar fora do mesmo. Deixar o pensamento acontecer sem preocupação de coerência para que ele encontre sua forma, seu como relacionar. Sufocar com a biblioteca mundial não é privilégio de poucos. Essa grande produção de entendimentos sempre exige que entendamos antes todos os outros, todos os mesmos, diferenciando-os, classificando-os, fazendo-os claros. E mesmo lendo e lendo, ouvindo e ouvindo, vendo e vendo, tocando e tocando, aspirando e aspirando, não lembro de todos e fabrico mil fantasmas e me cobro mil lugares de fala. Tudo isso é uma fuga da incompetência? Porque se alguém foi capaz de virar um pedaço de picanha é porque isso pode ser feito. Mas virar uma picanha é virar uma picanha. E dizer coisas é mais do que ser capaz de articular sons. E por se ter tido a ambição de poder dizer além dos sons, agora se sofre por dizer tudo que já foi dito. E estar tão nublado que até mesmo o não dito se faz sinistro. Desejante de um pensamento que não seja esse que me atola em todos os momentos do dia. Desejante de me liberar dessas pressões tais oásis imaginários incrustados em campos de areia.Querer beber muita água e ficar descansando dentro da sombra de uma árvore.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quem já não leu assim?


Sim, eu caminhei até o bar mais próximo. Sentei no balcão e pedi uma cerveja gelada. Cerveja gelada, por que não dá para querer beber como alemão ou inglês com a cerveja fabricada no Brasil, não, não dá!
Uma cerveja gelada para a senhorita! Grita o garçom com aquela cara dizendo atrás: mulheres bebendo sozinhas, deprimente. Como se eu não conseguisse ler através das fisionamias. Como se beber sozinho fosse sinal inegável de desilução ou desespero.
Desespero é ficar preso a um pensamento de comportamentos. Não quero saber de comportamentos pré-estabelecidos, quero mesmo saber é de vivências.
Estava lá, copo na mão, livro de fotografias na outra mão, coisas demais na cabeça para ficar esperando conversa: naquele dia.
Esperar conversa é esperar problema – bons ou difícieis, importa só na medida de entender o problema. E poderia ser que:
Sempre pode ser que: no Bar. Mas pode ser quando há tempo para ser.
Um copo de água, por exemplo: ei! Garçom, um copinho de água, pode ser da torneira. Não dá tempo de fazer encontro. Claro, a menos que dois narizes se juntem numa trombada de descoberta e contentamento. Na dinâmica do acontecimento pode até com copo d´água, pensando melhor.
Mas nada de trombadas naquele balcão, naquele final de tarde, naquele dia da semana, naquele mês... naquele planeta. Isso sim! Planetinha perdido! Tanta arrogância e estar confuso, preso pelas pernas a tanta coisa, todo dia.
Outra semana, caminhei até o mesmo bar. Segunda vez. E o garçom me disse por trás das palavras mais uma vez que não era certo. Que certo? Que?...
E da terceira vez, quando ele me serviu a terceira cerveja, falou sem falar, com aquele tipo de respiração pesada de desaprovação, que eu fosse à merda mesmo! Dei de ombros: na merda todos estamos mesmo com a terceira garrafa de cerveja no corpo.
Mais uma? O garçom perguntou arregalando os olhos.
Por que? Acabou a cerveja?
A senhora tem certeza?
Do que?
Que vai tomar a quarta cerveja?
Tu tens problemas com números, sequencias?
Hã?
1 – 2- 3 – 4, sequência?
Não, não!
Pois eu também não tenho quando se trata de cervejas, então, por favor!
Ele saiu e não disse palavra. Se eu fosse ele, pensaria que eu era qualquer coisa. O que ele pensou mesmo, talvez nem ele saiba muito bem!
Um pouco de confusão para uma quarta cerveja.
Bebi. Paguei e voltei um mês depois para comemorar com um amigo. Amigo de infância ainda por cima!
Uma cerveja bem gelada, pedi. Meu amigo contando uma particularidade do fato que estávamos comemorando, trabalhamos juntos. O garçom, o mesmo garçom dentre todos os que serviam naquele lugar, pareceu contente pela primeira vez desde a primeira cerveja que pedi, aquela do balcão e do livro de fotografias.
Fiquei pensando... que vontade de saber exatamente o que passava naquela mente... que vontade... não me aguentei:
Ele arrumou a garrafa na mesa, os copos, serviu-nos. Olhou para meu amigo, para mim e deu um sorriso. Agora ou nunca, minhas entranhas reclamaram:
E ficaram reclamando até a quarta cerveja... fiquei esperando a pergunta: a senhora tem certeza? Nada.