Em certos momentos penso que a humanidade está
realmente em estado de coma crônico. Encontra-se – mesmo nos núcleos formados
de intelectuais revolucionários - com pessoas que defendem o poder autoritário,
uma forma – qualquer que seja- de dizer o que outros tantos devem fazer, como
devem trabalhar, como devem comer, como devem viver suas vidas, como seus modos
de existência não podem ser senão de acordo com todos esses estabelecimentos
infra e supra estruturais como gostam de assinalar. E se tudo isso me irrita
intensamente é porque não posso com afirmações de condições históricas que
exigem ou exigiram (exigiriam) certas tomadas de decisão quando a própria
história com seus acontecimentos instáveis deixa passar ensinamentos de outras
possibilidades. Tudo isso tem a ver com inseguranças sobre as vontades,
portanto, por que não, sobre a negação das coisas e traçados, contatos,
conjugações, acasos das subjetividades. Mas sem deixar de tocar nessas
“sólidas” estruturas de poder, agora tangencio a questão do controle da
revolução e de seus agentes, tocando num assunto que se apresenta por pura
lembrança e porque, de uma forma ou de outra, exemplifica o que podemos fazer
em termos de tensão, de fricção até gerar energia de combustão revolucionária
ou rompimento niilista. Certamente que – como diz Deleuze – o que pode nos
manter enquanto humanidade é nosso devir revolucionário, mas uso isso com um
misto de revolta que tem a ver com toda a vida que só pode ser feita durante as
coisas consideradas podres, feias, sujas pela disciplina revolucionária. Então,
se tenho mais vontade de fazer revolução como quem faz rock’n’roll, quem será o
burocrata que irá me mostrar um caminho mais divertido e ao mesmo tempo sério –
porque perigoso e porque diverso – de fazer algo diferente? Não se trata de se
acabar na diferença em si, mas fazê-la funcionar como positividade ontológica e
– para a total satisfação do corpo revoltado – como ação de luta. Fica-se
cansada de ouvir que toda a forma de organização necessariamente exige uma
maquinaria de centralização do planejamento e das tomadas de decisão. Pensando
em exemplos etnográficos e históricos. Não pode ser. Podemos ser outra coisa.
Podemos ter outra ordem. Podemos estar em relações que deem conta de mais de
uma inteligibilidade; precisa-se acreditar que é possível ter mais de uma
inteligência. Se ninguém mais acreditar, escrever um tratado para tornar isso
real para além de uma mente marcada por certo número arbitrário e promíscuo de
leituras. Só sei que não quero as regras dos EUA nem da União Europeia tampouco
da China ou da Rússia. Ainda quero e penso e faço: “Pátria livre: Venceremos!”
Porque ainda confio na nossa verve crioula! E nessa criatividade que não se
deixa fazer doutrina, mas que faz política marginal. Será que teremos que
voltar para as cadeias para aprender a desobediência civil? Ou para pegar de
volta o devir revolucionário de cada ser posicionado nesse mundo de misérias?
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Política Menor (número 0)
Postado por
atravessamentos
às
15:37
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